quarta-feira, 20 de abril de 2011

Balangandans ~ Mauricio Pereira



Balangandans  [Mauricio Pereira]
É justo para se lamentar, a gente abrir mão de segundos
preciosos
Que talvez nos trouxessem direto um pro outro?
É justo que um pote de ouro venha ao seu encontro (e ao meu)
E desencadeie pânico, paralisação, desastres, desculpas?
É justo te dar um beijo na boca à margem da testa, da fala
E da escrita, de uma represa, uma festa?
é justo permitir que uma palavra desgovernada deixe minha boca
E aumente minha resistência a você?
Se uma pessoa só é uma máquina só
Se ela (provavelmente)
Canta, dança, pensa, treme
Aflita
Não será que tem respostas nas pontas dos dedos
-Dados, balangandans no pensamento-
Que costumem nos acompanhar?

aranhas - 2 de abril


[imagem: escultura de Louise Bourgeois]


Por onde meus passos têm caminhado?
Os pés tateiam algum chão
cacos de vidro,
plumas

ou véus
linha por linha
poro por poro
se dilata,
se dissolve no espaço
o tato embriagado
vaidade

ou perfume de mulher
em seus cabelos moram as aranhas
que se escondem debaixo de seus braços
os pêlos de todo o corpo são macios
tecidos pelas tais aranhas
que saem de seus poros
nascidas de seus seios, macios

onde estão fincados os meus pés?
pensei que caminhava
passo ante passo no mesmo lugar
os cacos não sinto mais
não me lembro  mais
como era não estar embriagado
ou em movimento.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

filhos e irmãos

Me sinto-te terra
irmão
filho pródigo do ar
sem volta
mas ainda sim
filho

terça-feira, 12 de abril de 2011

29 de março

Numa senhora
de tranças amarradas
eu suas amarras
ou rugas na cara
pernas brancas e calcinha
cuja a grama alta corta
e esfola molhado
ar vermelho
a terra úmida
lambuza os pés
engole
(engulo)
a terra-útero
do outro lado
o renascer-pai
desconstruído

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Nostalgia da Luz





31 de outubro de 2010

Pelo deserto
Não cesso minha busca pela permanência.
Ninguém cai, ninguém levanta.
Onde as estrelas são a prova da violência
é impossível dormir
quando debaixo de meus pés
reclamam lembranças mortas.
Os vivos estão mais mortos
e ninguém reclama pelos vivos.
Tropeço em pedaços de estrelas em decomposição.
Eles não tem rosto, mas clamam por identificação.

Onde debaixo dos pés as estrelas não dormem
Olhamos para o céu procurando por salvação
ou identidade que nos dê sentido.